sábado, 4 de agosto de 2007

MOLHANDO AS PALAVRAS


"Vim molhar as palavras". Achei a metáfora muito bela, significando: vim tomar um café.Porém, molhar as palavras vai além de tomar um café, é um convite para um papo gostoso, uma amizade.Aquele menino de pouco mais de vinte anos era capaz de metáforas incríveis. Era um poeta, sorte de quem já havia percebido. Ele vai morar para sempre em meu coração.

terça-feira, 31 de julho de 2007

MAMA ÁFRICA



Ela vinha pelas ruas com seu gingado capaz de conduzir batalhões para onde quisesse. Entretanto, não queria.Quem a olhasse, de frente, enxergaria uma Mama África bela pelo porte, bela pela cor negra reluzente, bela pela alegria e bela pelo sentimento de mundo que poucos tiveram a sutileza de perceber em seu olhar.

domingo, 29 de julho de 2007

OLHAR DO CORAÇÃO

A minha grande amiga Sônia


Tarde chuvosa de verão...Yris espreguiçou-se na cadeira de balanço onde adormecera ouvindo música. Acordou renovada...Um sonho suave e acalentador acrescentava novidade àquele despertar.
Yris nunca esmorecia. Diante de grandes tombos que levara, abalava-se, porém reeerguia-se e continuava a caminhada. sempre acreditou na vida. Pondera o presente, balaçando-se com vagar. O que poderia fazer com aquela chuva insistente que não combinava com o pulsar quente de vida em seu coração? Dirigiu-se à janela...Podia ver o mar mais agitado do que nos outros dias. Precisava sair e ver gente...As nuvens cinzentas logo desapareceriam ou suavemente se abririam para dar passagem aos raios de ol.
Às vezes, na rua, observava os rostos... tantos rostos marcados pela dor, olhos baços sem esperança. Conseguia, quando tinha sorte, encontrar pessoas sorrindo, não socialmente, de coração...Onde deixara o guarda- chuva? Nunca sabia. Era melhor aguardar para sair... Quando menina, caminhava sob a chuva alegremente. Gostava de sentir o rosto e os cabelos molhados, sensação de liberdade. Quando perdera esse gosto? estava consciente de que muito se perde ao longo da vida, mas não sabia porque nunca mais caminhara sob a chuva... que foi cessando... e ela, lepidamente, pegou a bolsa e saiu...Lá vai ela lendo do outdoor ao cão sarnento que dorme na calçada...Que proveito faz dessas leituras? Perguntam os amigos. mal sabem eles que ela não quer tirar proveito algm, só quer aprender a enxergar nem mais nem menos do que os outros...É preciso treino constante para não se perder a capacidade de ver a vida. A areia tépida envolvendo-lhe os pés já descalços...Se pudesse também desnudar a alma! Só, diante daquele mar!... Agora o sol vinha acariciar-lhe o rosto...Sentada à beira-mar, respirava sinceramente o fim da tarde....Para Yris o cenário era pura poesia!
Acreditava que a sinceridade estava acima de tudo nesta vida. Entretanto, a mentira poética ela aceitava como verdade inquestionável. Os homens hábeis com as palavras encantavam-na. Percebia que mentiam, até mais do que os simplórios,e fazia de contam que tudo era verdade; uma verdade em que só os que conhecem o reino das palavars acreditam. Criavam mundos, sentimentos, vestiam-na com doces e delicadas palavra a que ela se entregava com o suave suspiro das mulheres românticas.
Olha o mar... enxerga o horizonte... Ele surgiu, sem saber de onde nem por quê, para fazê-la, enfim, feliz, como nunca fora. Como criava com ternas e delicadas palavras a história que começaram a viver! Pouco importava, a ela quem era, onde vivia. Estar com ele, através das palavras, era vida!... Chegou de mansinho... aquele tigre...duas palavras cá, duas lá. Bolero sensual da linguagem da vida. Dançavam à distância. Ou ela dançava e ele, felino maestro, observava, dirigindo-a?Noite...encontro nos sonhos dela delirante. Ele conduzia no andar cadenciado do ritmo sutil de cada frase sugerida... e ela só ouvindo o que a imaginação lhe ditava. "Segredos de um abismo do meu mar", divagava Yris. seduzida pelas palavras! Não o gesto, não o rosto, mas as palavras...."Ai, palavras... que estranha potência a vossa", não a potência do Romanceiro da Inconfidência. A Yris, a revolução que ora interessava era a do coração, a potência do discurso amoroso... E não viveu nem metade do que as palavras dele prometiam. Mesmo assim, viveu como nunca! Horas a fio conversavam....Andava suspirar pelas ruas da cidade a que nem mais prestava atenção.
Vivia agora numa cidade imaginária onde só os dois existiam. Durante meses Yris foi feliz mergulhada num mundo de mentiras poéticas, até que sem saber para onde e por quê, ele se foi.
Olhou o mar, não tão agitado agora... Rememorou palavras, momentos e continuou sentindo aquela terna felicidade que lhe deixara no coração...Quantas mulheres tiveram o privilégio de viver intensamente o instante da paixão sem ficar com a dolorosa cicatriz do abandono? Isso já lhe bastava. Observou o céu. Que pôr-do-sol irreverente! Invadindo o corpo, alucinando a memória. sangue quente das touradas, de todas as guerras vitoriosas e perdidas, pincelando o céu...Ela respirou a vida como quem descansa da maratona ininterrupta e fotografou com um piscar de olhos o ouro sobre sangue no horizonte. Suspirou buscando o azul...O Olhar rejuvenescendo de paz....O amor tardaria chegar novamente? tanto fazia! Alimentava-se daquele céu que nenhum homem poderia dar-lhe e poucos saberiam as sensações que nela despertavam. Yris não conseguia despertar de vez de seu mundo de sonhos e tampouco resguarda-se, permitindo que sempre brotasssem em seu coração sentimentos intensos. Que fazer? nascera de peito aberto para a vida....As luzes da cidade... uma a uma como olhos piscando, vento com cheiro de mar. Um último flash daquele mar indescritível....Hora de enfrentar o presente...
Ergue o corpo lentamente como quem carrea o fardo da memória. caminhar pela praia e deixar a mão do vento cariciar os cabelos " O vento só fala do vento...A mentira está em ti" ecoam os versos pessoanos na lucidez que relutar aceitar. Levanta os braços como se quisesse alcançar o céu e, vagarosamente, desenha no ar, com seu corpo, o arco da aliança. Lágrima tem sabor de mar.

sábado, 28 de julho de 2007

O ÓBVIO NÃO É ULULANTE

O tempo não respeita reino algum.
Assim sendo, no pequeno reino de Cururu, não aconteceu a exceção, mas a pior de todas as regras...
No princípio, a população caminhava com os olhos ávidos de horizonte.
Os mais altos eram os primeiros a percebê-lo, alimentando os de estatura mediana e os mais baixos com o sonho: a bela visão do horizonte! E todos continuavam, alentados , a caminhar.
Um dia, um anão mal- humorado chegou ao reino de Cururu.
- Vocês são uns tolos! Cansam-se à toa. Não há como chegar ao horizonte!
Todos se entreolharam mudos. Nunca haviam imaginado essa possibilidade que o anão lhes revelava.
- O que você sugere, anão?
Irritadíssimo por terem percebido quem ele era, tentou disfarçar. Falou, aparentando tranqüilidade:
- Ora, parem essa caminhada sem sentido. Descansem sentados no zero.
- Sentados no zero?
- Sim. Fiquem de cócoras.
A nova maneira de viver, embora trouxesse um certo desconforto, parecia mais segura à população. Somente um homem perguntou:
-Mas... de cócoras?
O anão, percebendo que já havia cativado a população, argumentou gigantesco:
- Assim as diferenças de estatura serão praticamente mínimas, com a vantagem de que, parados, o sonho de chegar ao horizonte será uma inutilidade. Serão evitadas possíveis frustrações da longa e acidentada caminhada, etc...etc...
Todos concordaram com o anão, exceto o homem que questionara a nova postura. Era um insensato! Melhor que partisse...
...Parece que a população de Coral ficou sabendo das mudanças ocorridas em Cururu...
... Sorrateiramente, os coralenses estão chegando a Cururu...
P.S.: Quem visou os coralenses sobre a nova postura dos habitantes de Cururu foi o anão.Não se sabe seu paradeiro. Sabe-se, porém, que o insensato continua buscando o horizonte. Foi ele que me contou essa história.

AMOR A VISTA

Aos meus filhos

Ele estava no jardim. Da janela do quarto, observava-o sem que me visse.
Fazia bolhas de sabão e seu sorriso acompanhava-as livres, leves, assustadoramente livres...Nada que pudesse detê-las. Ao primeiro obstáculo,dissolviam-se, desapareciam, mas outras substituíam-nas.Às vezes uma resistia mais, subia suavemente e não se sabia o que lhe aconteceria.
Eu o queria assim... Ele era minha melhor parte, embora só lhe ofertasse a pior. Queria-o livre, mas só lhe oferecera um mundo que pudesse observar através das grades.
Aquele sorriso mantinha a esperança. Como preservá-lo? Eu era a morte dolorida destilada gota a gota em seus olhos que descobriam o mundo. A cada " não" eu sabia estar sufocando um desejo. O necessário adestramento social que me competia como mãe. A mão que conduzia os passos e o dedo apontando: " O caminho é este". Eu sabia que não poderia abandoná-lo... Sabia que, anos mais tarde, eu só iria realmente poder observá-lo, ele escolheria o caminho... Notou minha presença.
- Mãe, que bicho é este?
- É tatuzinho, meu filho. Se você encostar um dedo nele, vira uma bolinha.
- Posso pegar?
- Pode.
- Virou bolinha, mãe! E agora?
- Ele só está se protegendo. Quando puser no chão, ele desenrola e volta a caminhar.
- Posso pôr uns no vidro para mim?
- Se puser um pouco de terra para eles e deixar sem tampa, pode. Vou pegar um vidro para você. Pronto, ponha um pouco de terra e coloque alguns, não muitos.
- Por quê?
- Se você lotar o vidro, podem morrer. Pouco espaço para viver.
- o que será que eles comem?
- Não tenho certeza, mas devem se alimentar da própria terra. Depois você pergunta a seu pai. Cuide deles, viu? Não os deixe morrer. Se perceber que algum morreu, devolva-os ao jardim.
- Tá bom, mãe. Você tem história de tatuzinho em algum livro pra contar?
-Não tenho, mas a gente inventa uma.
-Os tatuzinhos podem dormir no meu quarto?
- Melhor não, deixe-os sobre a mesa do quintal.
- Vamos?
- Aonde você quer ir, filho?
-Inventar uma história de tatuzinho.
Pegou miha mão.
Meus olhos pediam-lhe: " Leva-me, ensine-me a vida."

DECIFRANDO-SE

Viver é amar o trapézio apesar de todas as vertigens, correndo o risco, para ser seguro, de que vale a pena tentar o pulo, algo sempre amortecerá a possível queda. Tornar-se cinza e renascer, não temendo o inimigo que jaz em nós mesmos. Estender a mão e acariciar a vida frágil, maravilhosa. Beber o sangue quente das arenas que edificamos em nossa alma e não desistir se for amargo. Respirar o almíscar do sonho e entregar-se sólido. Ouvir o canto das sereias sem amarrar-se ao mastro. Fitar o dragão e derrotá-lo com um sorriso. Estar seguro de que o olho de Polifemo não nos vencerá. O olho, por gigantesco que seja, por ser único, não decifra os múltiplos enigmas. Viver é cavalgar a dor e deixar o selvagem explodir, posto que pronto.

AMADOR

O verdadeiro amador sente em silêncio.Nós que ainda tateamos o amor precisamos das palavras. Precisamos dizer e ouvir palavras doces, suaves e ternas.
Um mundo tecido de palavras, palavras, palavras...
Quantas vezes já não inventamos o amor com frases belas?! Conseguimos ir além da frase registrada no papel?
Quantas vezes procuramos aquele poeta que sintetizou no verso o amor, talvez nunca sentido, mas criado pela palavra?
Amar em silêncio... aprenderemos a?
Não dizer, apenas sentir.
Não a palavra, mas o ato,transbordando de amor, tornando fértil o coração do outro.